Filhos e netos são os principais agressores dos idosos

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capa_VelhinhoViolência financeira e psicológica são as mais frequentes, mas também haverá quase 58 mil casos em que há violência física, diz estudo do INSA

Quase 315 mil pessoas com mais de 60 anos foram alvo de alguma conduta de violência entre Outubro de 2011 e o mesmo mês de 2012. As conclusões são do Projecto “Envelhecimento e Violência” do Instituto Nacional da Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), o primeiro estudo sobre a prevalência da violência contra idosos na população portuguesa.

Os tipos de violência mais comuns são a financeira e a psicológica (6,3%), que terão afectado mais de 160 mil pessoas, mas a física também é verificada com frequência elevada. No ano analisado cerca de 58 mil pessoas terão sido alvo deste tipo de violência. Os principais agressores, refere o estudo, são os familiares mais próximos, sobretudo filhos e netos. Não é por isso de estranhar que 64,9% das vítimas opte por não falar sobre a situação nem apresentar queixa. A maioria dos inquiridos afirmava ter medo, querer proteger a família ou considerar a situação irrelevante para justificar não denunciar o caso. 

Vítimas são sobretudo mulheres. Na maioria dos casos vítimas são alvo de vários tipos de violência

O Projecto “Envelhecimento e Violência” do INSA incluiu um estudo populacional sobre violência e um estudo com vítimas de violência. O objectivo foi identificar e caracterizar as situações de violência a que estão sujeitas as pessoas com mais de 60 anos em contexto familiar, para estimar a prevalência e identificar factores de risco que contribuam para a ocorrência destas situações, referem os autores do estudo.

Em análise estiveram cinco tipos de violência: física, psicológica, financeira, sexual e negligência. As conclusões mostram que as mais frequentes são a financeira e a psicológica (6,3%), seguindo-se os maus-tratos físicos (2,3%), a negligência (0,4%) e a violência sexual (0,2%). No global, 12,3% da população com mais de 60 anos terá sido vítima de algum tipo de violência no ano em estudo. A maior prevalência dos casos, em Portugal Continental, é na região Norte (14,5%).

Ignorar, gritar, ofender, humilhar ou ameaçar são alguns dos actos descritos como violência psicológica. Já roubos, utilização de objectos contra a vontade da pessoa com mais de 60 anos, assinatura forçada de documentos ou concessão de direitos legais, apropriação da casa ou ausência de contributo nas despesas domésticas são considerados violência financeira.

A maioria das vítimas diz ter sido alvo de múltiplos tipos de violência (74%). As condutas mais reportadas, segundo o estudo, foram bater/agredir (89%), gritar (78%), ameaçar (48%), ignorar (47%) e roubo (46%). As mais afectadas por este problema são as mulheres (76,1%), entre os 60 e 69 anos, que frequentaram o ensino básico ou não têm escolaridade, reformadas ou com rendimentos baixos, até 500 euros (66,4%).

O risco de ser vítima aumenta com a idade. Segundo o projecto, em indivíduos com mais de 76 anos o risco aumenta 10% por ano. Da mesma forma estão mais expostas a estes tipos de violência as pessoas que estão dependentes nas actividades da vida diária.

Já os principais agressores foram familiares (27%), descendentes (16,1%), ex-conjugues ou ex-companheiros (13,1%) e amigos e vizinhos (11,6%). Os casos de violência financeira estão mais ligados a descendentes (filhos e netos) e outros familiares, enquanto a violência psicológica é exercida também por familiares e ex-cônjuges/ex-companheiros. Os principais motivos apresentados pelas vítimas para não apresentarem queixa foram considerar que o incidente não foi relevante (38%), a importância de laços de afecto com os agressores (10,5%) e medo (5,9%).

Denunciados 619 casos de violência doméstica em 2013

Em 2013, houve 619 casos de violência doméstica denunciados na região. Penafiel é, segundo os dados a que o VERDADEIRO OLHAR teve acesso, o caso mais problemático, com o posto da GNR deste concelho a receber 151 queixas relativas a este crime nos 12 meses do ano passado. Paço de Sousa, localidade onde a Guarda também tem posto, fica no último lugar de uma lista que ninguém quer liderar.

Maior número de denúncias acontece no Verão

A violência doméstica continua a ser um crime socialmente aceite. Ainda é válido para muitos o ditado que entre “marido e mulher não se mete a colher” ou o princípio que os problemas familiares resolvem-se no seio da família. Tal leva a que os maus tratos a idosos, por exemplo, continuem a ser encobertos por familiares, amigos e vizinhos que preferem olhar para o lado em vez de denunciar o caso às autoridades.

Apesar deste dado empírico, há também a noção de que as mentalidades estão a mudar. E os dados da GNR relativamente à violência doméstica a que o VERDADEIRO OLHAR teve acesso parecem confirmar tal situação.

Em 2013, os postos da GNR da região – ou seja os existentes nos concelhos de Lousada, Paços de Ferreira, Paredes e Penafiel – receberam 619 queixas relativamente ao crime de violência doméstica. 151 delas foram registadas no posto situado na cidade de Penafiel. Este é o maior número de uma lista que tem Lordelo, freguesia do concelho de Paredes, no segundo lugar. Na terra conhecida pela indústria de mobiliário foram concretizadas 136 queixas, mais 35 do que as que foram feitas no posto da Guarda localizado na sede do concelho, Paredes.

Em Lousada, a GNR ocorreu a 91 casos de violência doméstica, enquanto em Paços de Ferreira este número foi de 63. Segue-se São Vicente, em Penafiel, onde 40 actos passíveis de serem enquadrados na violência doméstica ocorreram.

Os postos de Freamunde (27) e Paço de Sousa (10) são os que, no ano passado, registaram menos queixas relativamente à violência doméstica.

Um dos filhos foi preso preventivamente depois de ter atacado mulher de 65 anos

Albertina: uma mãe que perdoa os constantes insultos e agressões dos filhos

Albertina Barbosa, 65 anos, vítima de maus tratos por parte de dois dos sete filhos. O coração de mãe fá-la encontrar desculpas várias para os actos violentos que, durante os últimos anos, sofreu às mãos dos homens de 29 e 46 anos. O mais novo está, inclusive, em prisão preventiva depois de a ter atingido com o portão da entrada da casa. O mais velho vai ser internado nesta sexta-feira numa clínica que acolhe e trata alcoólicos.

Aos dois, Albertina perdoa todas as agruras que passou e está disponível para os continuar a alimentar e a lavar a roupa com os poucos mais de 500 euros que ela e o marido recebem de reforma.

“Com o álcool fica outra pessoa”

Albertina Barbosa foi nada e criada numa freguesia de Lousada. Foi nesta localidade, onde habita uma casa com espaço, mas a reclamar uma intervenção profunda, que esta mulher criou os sete filhos. Seis deles, conta ao VERDADEIRO OLHAR, casaram e partiram para constituir a sua própria família. Ficou um, o mais novo, mas também o mais problemático. “Tem 29 anos e é muito sensível e amoroso para mim e para o para o pai. Era o que estava sempre pronto para ajudar, mas com o álcool fica outra pessoa”, refere.

Em todas as frases que diz, Albertina tenta desculpar o filho que está em prisão preventiva desde Novembro do ano passado. Nessa altura, durante mais uma das muitas discussões, o homem pontapeou o portão da entrada contra a própria mãe, provocando-lhe ferimentos na cara e numa das mãos. Foi o último episódio de um enredo dramático e em que a vítima era sempre a mesma pessoa. “Só a mim é que me tratava mal. Ele queria dinheiro para a bebida e para o tabaco e virava-se a mim. Como eu não lhe dava ele destruía tudo. Se se lembrasse de virar a mesa ao contrário virava. Noutras vezes partia a loiça”, refere a sexagenária.

À violência física juntava-se, não raras vezes, uma pressão psicológica difícil de aguentar. “O que mais me doía eram as palavras que ele dizia. Agora, vou à prisão levar-lhe roupa lavada e pagar-lhe uns maços de tabaco e parece um anjinho”, refere.

“Quando bebe também me dá para tratar mal”

Os problemas desta mulher de 65 anos não terminam no filho mais novo. Há 13 anos, um dos filhos mais velhos divorciou-se e, sem mais para onde ir, regressou a casa dos pais. Nos primeiros tempos ainda trabalhou, mas há muito que está inscrito no Centro de Emprego e sem qualquer perspectiva de futuro. O tempo é, por isso, passado entre alguns trabalhos agrícolas e o álcool. “Vai ser internado esta sexta-feira. Vai ficar 15 dias numa clínica de Matosinhos”, revela a mãe.

Albertina teme que este período seja pequeno para tratar o problema de alcoolismo do filho e para terminar com o seu pesadelo. “Quando bebe também me dá para tratar mal”, garante.

A ela e ao irmão mais novo, pois eram frequentes as agressões entre os dois homens que habitam na mesma casa.

Apesar de insultada e agredida pelos filhos, Albertina teima em dividir o pouco que tem com a família. Ela recebe 250 euros por mês de uma pensão de invalidez e o marido acumula os ganhos do trabalho agrícola com uma reforma de 300 euros. “Este dinheiro tem de dar para tudo. Para os medicamentos, para a comida e para a roupa de todos”, refere.

Fonte: Verdadeiro Olhar

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